João Mitanga, solteiro, 33 anos, residente em Lisboa; é stand-up comediant, e especialista em cuspir na cara das pessoas que o ajudam.
Sem Wonderbra: João Mitanga, você já actuou em bares um pouco por todo o lado, e até em televisão. Como é que consegue concretizar isso?
JM: Bem, primeiro deixe-me dizer-lhe que eu não consegui concretizar nada de especial. Sinceramente, uma pessoa da minha idade andar em bares a dizer piadas vestido de palhaço, é um bocado ridículo. Ainda se eu tivesse outra profissão, mas não tenho. Não tenho carreira absolutamente nenhuma, aliás, eu vivo em casa da minha mãe.
SW: Muito bem, mas mesmo assim arranja maneira de continuar a fazer essas figuras, como é que arranja força para o fazer?
JM: Não é força. É que eu não tenho vida. Nem amigos, por isso fazer stand up é a única maneira que eu tenho de falar com pessoas.
SW: Ok.JM: Posso contar-lhe a minha ultima piada?
SW: Não.
JM: Está bem.
SW: João Mitanga, você é, segundo consta, um dos maiores especialistas em cuspir na cara das pessoas que o ajudam, que confiam em si, e até se pode mesmo dizer, que trabalham de graça e de boa vontade para si; é verídico?
JM: Completamente. Alias muito recentemente alguém perdeu muito tempo e esforço a arranjar salas de espectáculo para eu actuar, e eu estive-me a cagar e não a ajudei. Supostamente devia, pois estávamos a trabalhar com um objectivo comum. Mas em vez disso, pelas costas combinei outros projectos com outras pessoas dos quais a exclui, sem lhe dizer nada.
SW: Muito bom.
JM: E mais, ainda dois meses a dar-lhe graxa e a dizer mal dos outros, e a fazer essa pessoas de otaria.
SW: Pode-se dizer então que você é, por assim dizer, um “porco suíno”?
JM: Sim, penso que “porco suíno” seja a expressão certa.
SW: Muito bem. João Mitanga, você fez muitas coisas na vida. Mas acima de tudo, chegou aos 33 anos virgem, como é que isso aconteceu? Será que é tudo graças a essa tromba horrível?
JM: Sim, eu sou completamente frustrado sexualmente, talvez por isso. Mas penso que também é porque estou sempre a fazer trocadilhos nojentos, e a rir-me desta maneira.
SW: Que maneira?
JM: Esta, he he he…
SW: Por favor, pare.
JM: esta bem.
SW: Então não tem namorada. Mas e os seus amigos, há de ter amigos?
JM: Não, também não tenho. Isso é muito penoso para mim; as vezes apanho grandes bebedeiras sozinho, e depois telefono às outras pessoas a meio da noite.
SW: Então?
JM: Não sei, mas essa é um das minhas grandes mágoas: não ter amigos. Penso que será porque todas as outras pessoas normais da minha idade têm uma casa, uma profissão, uma mulher e até mesmo filhos. E eu não.
SW: E também deve ser por não ter amigos então, que você é uma pessoa dissimulada e falsa, que está sempre a tentar agradar a toda a gente; uma pessoa sem opinião própria e sem personalidade?
JM: Sim, penso que será por isso.
SW: E voltando a esse projecto no qual está envolvido agora, como é que se chama?
JM: Sim, os “Para Sempre Anónimos”.
SW: Que consiste…
JM: Nada de especial, apenas um grupo de pessoas que se juntou para tentar arranjar melhores sítios para actuar só para eles, e deixar aqueles que sempre os ajudaram de fora.
SW: E já arranjaram alguns sítios?
JM: Neste momento ainda não, só o sitio “o Metro de Lisboa”.
SW: E quem são os “anónimos”?
JM: Os Para Sempre Anónimos são vários. Um deles já criou o seu site pessoal. O que eu acho bom. Alias, acho que todo o cidadão comum devia ter o seu site pessoal. A titulo de curiosidade, a minha avó também vai criar um.
SW: E são jovens com talento?
JM: Não. Para já, eu por exemplo não sou jovem, por isso já não vou a lado nenhum. E para mais, há lá um que não tem mesmo talento nenhum.
SW: É verdade que você andou inclusive a dizer mal desses seus colegas de projecto?JM: Claro. Então. Eu tenho que agradar a toda a gente. E um dos requisitos para isso é obviamente andar a dizer mal das pessoas nas costas.
SW: Então esta mais que confirmado, que você é uma pessoa nojenta, sem personalidade absolutamente nenhuma?
JM: Exacto. Nenhuma.
SW: Bem, já se está a fazer tarde, é melhor darmos esta entrevista como terminada. Ainda tenho que ir entrevistar o primeiro ministro demissionário.
JM: De missionário? De missionário só conheço a posição. He he he!
SW: Não, o primeiro ministro, à assembleia da republica.
JM: Assembleia da “republica”? Eu cá prefiro a “ré privada”, he he he!
SW: …
JM: Tenha cuidado , quando sair, não deixe a porta aberta, senão “a Berta” bate á porta. He he he!...